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30.11.07

O segredo de Bogotá

Ainda sobre Bogotá. A cidade não é propriamente bonita. A muralha dos Andes a leste é sensacional, mas nada comparado ao Rio. Há muitos problemas, um trânsito caótico, ar poluído, bairros perigosos e os edifícios de tijolos vermelhos, mesmo sendo uma marca registrada de lá, tornam a paisagem um tanto monótona. Com cerca de sete milhões de habitantes, não poderia ser diferente. Mas há uma coisa que sobra em Bogotá e praticamente inexiste no Rio.

Não é algo facilmente perceptível, ainda mais para um turista. É uma sensação, um sentimento de que a cidade está em funcionamento. Não é como o Rio, que vive apesar dos problemas. Lá, é como se a cidade vivesse também para superar os problemas. E que problemas! Há toda a história de drogas, seqüestros e assassinatos, que pode ser resumida com a invasão, há 22 anos, do Palácio da Justiça, sede da Suprema Corte, no centro histórico da cidade, pela guerrilha M-19. Morreram civis, todos os guerrilheiros e metade dos juízes membros da Corte. Algo inimaginável. Há apenas 22 anos. E a cidade superou isso (ou preferiu esquecer, como dizem alguns).

Conversando com moradores e conhecendo o passado recente de Bogotá, fica um pouco mais fácil entender o que falta por aqui. Apesar de capital do país, os bogotanos, de qualquer orientação política, não hesitam em prestar elogios aos seus últimos quatro prefeitos. É a mão visível do poder público. Do poder público LOCAL. Tenho a impressão de que é disso (claro que não só, mas principalmente) que precisamos.

O detalhe é que o mandato para prefeito de Bogotá, antes de 2004, era apenas de dois anos. A mudança começou efetivamente no final da década de 1990. E entre lá e cá houve alternância no poder.

O que dizer, então, do nosso prefeito, que governou o Rio durante 12 dos últimos 16 anos e ainda fez seu sucessor nesse intervalo?

Novos postais brasileiros

Esse país é mesmo uma caixinha de surpresas. Viajei para o exterior pela primeira vez na vida, passei apenas seis dias fora e, ao voltar, deparei-me com com dois casos que ilustram perfeitamente a situação em que nos encontramos.

Um deles é a história da menina menor de idade que foi presa e encarcerada com homens no Pará. Um dos piores exemplos de como o Estado brasileiro é assassino. O outro episódio se refere ao turista italiano atropelado por um ônibus após se engalfinhar com um assaltante na orla do Rio. Se não cuidamos bem dos nossos, por que iríamos cuidar bem dos outros, não é mesmo? Igualdade de oportunidades é isso aí.

Passei esses seis dias em Bogotá, na Colômbia, levando na bagagem conselhos honestos sobre precaução e cuidados e piadas e brincadeiras clichês e preconceituosas sobre nosso vizinho latino-americano, além de minha própria carga de curiosidade e ignorância. Perguntaram-me se iria para Bogotá comprar pó. Ora, eu moro no Rio, onde, descobri, é muito mais fácil comprar drogas. Olhemos mais para nosso próprio umbigo, por favor!